Agro: Vocação Brasileira

O cientista político Christian Lohbauer analisa as perspectivas do agronegócio brasileiro
Christian Lohbauer – Rede Agroservices


Qual é a vocação do Brasil? O que é essencial para se reconstruir o Brasil depois de quinze anos de populismo e tutela de um Estado perdulário e corrupto liderado por pessoas indesejáveis que estão todos os dias no noticiário dos jornais e TVs? O que o Brasil tem para retomar o desenvolvimento e enriquecer livremente entre as nações mais respeitadas do mundo?

No século XIX, o economista e político inglês David Ricardo estudou o comércio internacional e formulou a teoria das vantagens comparativas. Ricardo demonstrou que os países podem se beneficiar mutuamente do comércio livre mesmo que um país seja menos eficiente do que o outro na produção de bens. Ele dizia que nem a quantidade de dinheiro nem o valor monetário desse dinheiro eram determinantes para a riqueza de uma nação. Mais importante era a abundância de bens disponíveis para a comodidade de seus habitantes.

De lá para cá o mundo mudou muito mas ainda está dividido em cerca de 200 países heterogêneos e em busca de riqueza e desenvolvimento. O Brasil é um dos grandes países do mundo, tem recursos naturais e um mercado consumidor invejável. A vocação brasileira é aquilo que os brasileiros quiserem. E, se quiserem, podem produzir qualquer coisa. Mas o que é aquilo que o Brasil tem em abundância e que deve ser sua prioridade já alinhada à sua vocação de trabalho duro?

A produção de alimentos. Para um mundo que demanda segurança alimentar. Essa é a grande oportunidade brasileira. Um projeto nacional estruturado na agricultura, na indústria de alimentos e na tecnologia de alimentos é o que garantirá o aumento de oferta de 20% que o mundo demandará em 10 anos. E para que isso aconteça o Brasil que deverá dobrar sua produção de alimentos - palavra da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Do que estamos falando exatamente? Não tem sido fácil mostrar aos próprios brasileiros a chance que sua agricultura e o agronegócio podem dar ao país. O Brasil se urbanizou e esqueceu que a terra e a produção são o motor do desenvolvimento. O discurso ecológico raso e o ressentimento distributivista e demagogo dos movimentos sem terra, da exploração indigenista e da histeria de proteção de florestas apagou da percepção dos brasileiros a real dimensão e os efeitos colaterais provocados pelos produtores de alimentos. A agricultura renova a indústria, promove a tecnologia, agrega valor aos produtos e enriquece a sociedade.

O desenvolvimento do agronegócio exige que o país inove também na siderurgia que terá que produzir aço de qualidade para máquinas e equipamentos agrícolas, caminhões, vagões, trilhos e silos. Toda uma indústria química e biotecnológica de insumos, defensivos e sementes investe bilhões de dólares para trazer mais tecnologia e aumentar a produtividade da produção. Qual deve ser a prioridade da infraestrutura brasileira, aquela que trará de volta as grandes obras em estradas, pontes, ferrovias e aeroportos, senão as obras de escoamento da produção brasileira para os grandes centros urbanos e o exterior?

A percepção de que há menos agregação de valor no setor agrícola também já é conversa do passado. É enorme a quantidade de tecnologia envolvida em um grão de soja, em uma tonelada de suco de laranja concentrado ou uma tonelada de cortes de frango kakuguiri para o Japão. Para que produtos como esses cheguem aos seus destinos mundo afora uma grande capacidade de trabalho, competência, esforço e estudo foi necessária. Tudo desenvolvido por brasileiros: veterinários, agrônomos, engenheiros, economistas, programadores e softwares, administradores.

Aquilo que ainda funciona no Brasil está diretamente ligado ao agronegócio. Sabe por que isso aconteceu? Porque nos últimos 40 anos o Estado deixou de interferir e regular a produção agrícola e o país deixou de ser um importador de alimentos para se tornar o maior exportador do mundo. O agronegócio é a vocação brasileira. Promove a paz com a abundância de alimentos.

E o que o futuro nos reserva? Em 2018 tudo indica que a safra de grãos não deve ser tão grande quanto a de 2017. Mas será boa e os preços não devem sair, na média, de patamares remuneradores. O ano de eleições gerais que serão fundamentais para a renovação política do país deverá trazer alguma instabilidade momentânea. Mas ninguém segura o Agro brasileiro. Ele é maior do que qualquer erro que venhamos a cometer. Em frente.

Christian Lohbauer é diretor de Assuntos Corporativos da Bayer.

COPYRIGHT © BAYER S.A - Última atualização: 13/12/2012 (1.0.2387)